CHARLATÃO
Estávamos nós, quatro individuais, curtindo o forró, bebendo e admirando um belo rapaz que conseguia ser mais individual do que todas nós somadas. Eis que surge o fulano de blusa vermelha convidando quem quer que fosse para dançar. Não especificou qual individual queria e ficamos todas caladas se entreolhando para saber quem teria coragem. Até que o fulano solta “calma, é só para dançar” (individuais respiraram aliviadas).
E assim foi feito. Primeiro a corajosa City, depois a Madre, a Poita (que vos escreve e que deixou bem claro pro fulano que seu dom não era a dança) e por último a individual Sem-Limite. E assim, o fulano foi adentrando a noite revezando as individuais. Até que o tal dançava bem, só suava demais e às vezes colava demais, mas nada de anormal prum forró. Mas mentira tem perna curta e eis que sobra para mim descobrir o tremendo charlatão que era o ser.
Nas vezes em que dançamos, eu perdia o ritmo, ameaçava cair quando era rodada e dei algumas leves pisadas - calma, também não sou um desastre ambulante como pode parecer, é que preciso ser muito bem conduzida – mas mesmo assim o fulano me chamou para outra dança. Fiz uma cara de você que sabe e foi aí que inocentemente dei a deixa pro cidadão que quando me abraçou soltou logo “nem sempre a melhor dançarina é a melhor mulher”. Fiquei muda e continuei dançando pra ver se ele pensava que eu também era surda. Forró malabarístico truando e fulano dá outra declaração “vamos dançar assim que é mais romântico” (assim = colados). A Poita aqui ficou mais dura do que já é. Fulano solta a mão e coloca a (mal)dita nas minhas costas. Poita cada vez mais parecendo um cabo de vassoura. Até que o abusado resolve segurar meus cabelos e puxar. Minha condição não me deixa lembrar se reclamei e ainda fui até o fim da música ou se soltei o fulano imediatamente. Sei que na mente piscava em néon #@$%!! que pariu, que merda. Pelo resto da noite, toda vez que o charlatão folgado vinha me tirar para uma contra-dança eu estava muito bem agarrada ao meu copo e dizia que sem ele eu não poderia viver.
Ah que eu não suporto esse tipo que finge compreender a filosofia individual, mas na verdade tudo o que mais quer é nos tornar coletivas.